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Além do Diagnóstico: Como a Psicologia Corporal e a Neurodiversidade Mudaram Meu Olhar Sobre o Autismo

  • Foto do escritor: ITHER
    ITHER
  • 30 de jun.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 2 de jul.

Quando pensamos no Transtorno do Espectro Autista (TEA), a maioria das associações comuns costuma girar em torno de termos médicos tradicionais, como "distúrbio", "déficit" ou "falha de desenvolvimento". No entanto, ao longo da minha trajetória como psicóloga integrativa, um questionamento sempre me acompanhou: o que acontece se mudarmos a lente pela qual observamos essa condição — e tantas outras expressões do desenvolvimento humano?

E se, em vez de nos perguntarmos apenas o que há de errado com este indivíduo, passarmos a investigar o que aconteceu com esse sujeito e como ele precisou se adaptar para sustentar a vida? E se, em vez de enxergarmos o autismo como um erro biológico, passarmos a compreendê-lo como uma resposta adaptativa inteligente e legítima do organismo a um ambiente desafiador?

Recentemente, tive a honra de aprofundar e sistematizar essa visão em um artigo acadêmico escrito em parceria com a Sandra Mara Volpi, publicado nos Anais do 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais. Nele, propomos cruzar os conceitos clássicos da Psicologia Corporal de Wilhelm Reich com as descobertas contemporâneas da neurociência para construir caminhos clínicos mais integrativos, sensíveis e menos patologizantes. Neste artigo, quero compartilhar com vocês as principais reflexões desse estudo e como elas impactam a forma como acolho o espectro e a singularidade de cada história de vida na clínica.

 

O Corpo como Nosso Primeiro Lar e a Força da Autorregulação

Nas bases teóricas de Wilhelm Reich, compreendemos que o desenvolvimento do ser humano é profundamente moldado pela qualidade do contato físico, emocional e energético desde a vida intrauterina. Quando o ambiente oferece um acolhimento responsivo e potente o que o psicanalista Donald Winnicott chamou de ambiente "suficientemente bom" , o organismo desenvolve sua capacidade inata de autorregulação.

A autorregulação nada mais é do que a habilidade natural do corpo de processar e equilibrar seus estimulos, prazeres, dores e afetos sem precisar enrijecer suas estruturas físicas ou emocionais. No entanto, quando as necessidades básicas de contato falham, são reprimidas ou o ambiente se mostra hostil, o organismo humano encontra maneiras alternativas de se reorganizar para sobrevivir. É nesse cenário que as couraças musculares e os traços de caráter começam a se formar como verdadeiras barreiras de proteção.

 

O Traço Esquizoide de Caráter e o Espectro Autista

Dentro da abordagem da psicoterapia corporal desenvolvida por Alexander Lowen, estudamos a estrutura de caráter esquizoide. É fundamental ressaltar que, na nossa prática clínica, esse termo não se refere a uma psicopatologia descrita pelos manuais psiquiátricos tradicionais (como o DSM-5), mas sim a uma organização de defesa precoce, caracterizada pelo distanciamento afetivo, busca por previsibilidade e retração diante do caos do mundo exterior. No artigo, apontamos como muitas características observadas no TEA encontram paralelos diretos com o traço esquizoide.

Sob o olhar reichiano, comportamentos como a evitação do contato visual ou os padrões motores repetitivos deixam de ser encarados puramente como disfunções e passam a ser interpretados como estratégias funcionais de autorregulação. São soluções construídas pelo próprio organismo para preservar a integridade do self diante de estímulos percebidos como invasivos ou incompreensíveis.

 

O Diálogo com a Neurociência: A Teoria Polivagal

Para dar ainda mais segurança e embasamento científico a essa leitura psicocorporal, nós ancoramos o estudo na Teoria Polivagal de Stephen Porges. Porges introduz o conceito de neurocepção, que é a capacidade subconsciente do nosso sistema nervoso de avaliar constantemente se o ambiente ao redor é seguro ou ameaçador. Em indivíduos no espectro autista, pode haver desafios nessa leitura neuroceptiva automática. Isso faz com que o sistema de engajamento social permaneça mais deprimido, acionando reações defensivas de isolamento ou retração de forma muito mais sensível. A autorregulação dessas pessoas, portanto, depende crucialmente da construção de um espaço seguro e de uma corregulação cuidadosa dentro da relação terapêutica.

 

Questionando o "Mito da Normalidade"

Trazendo para a discussão o pensamento do renomado médico e autor Gabor Maté, convido você a questionar: o que a nossa cultura realmente define como normal? Muitas vezes, o que a sociedade moderna aceita e exalta como níveis crônicos de estresse, repressão de lágrimas e o silenciamento da espontaneidade corporal é, na verdade, profundamente anormal e tóxico para as nossas necessidades biológicas e emocionais básicas. Portanto, tentar enquadrar ou formatar pessoas autistas sob uma régua puramente neurotípica e normativa pode significar o aniquilamento de suas singularidades e de sua potência vital. Os sintomas observados no TEA não devem ser imediatamente traduzidos como defeitos, mas sim como modos legítimos de funcionamento que carregam a inteligência de quem tenta existir em um mundo estruturalmente doente.

 

Como Atuo na Prática Clínica Integrativa

Na clínica corporal, utilizamos recursos específicos como o trabalho sutil com o olhar, o enraizamento (grounding), o toque adaptado para hipo ou hipersensibilidades e os actings (movimentos e posturas corporais orientados). No entanto, na minha prática, a técnica jamais vem antes do vínculo. Meu papel como psicoterapeuta corporal não é "consertar" ninguém, mas sim oferecer o que chamamos de holding: uma presença confiável, respeitosa, contínua e segura. É o corpo do próprio paciente que orienta e dita o ritmo do processo terapêutico. Ao acolher as pausas, respeitar os recuos e não forçar os limites, permito que, gradualmente, as camadas de tensão crônica possam se dissolver e a vitalidade retome seu fluxo mais livre e autêntico. A neurodiversidade não pede correção, mas sim escuta genuína, espaço e legitimidade. O meu convite, como terapeuta, é sempre por mais vínculo e menos adaptação forçada.

 

Referência Completa do Artigo Acadêmico:

RABELO, Luciane Costa; VOLPI, Sandra Mara. Transtorno do espectro autista e a psicologia corporal: a neurodiversidade como resposta às repressões sociais. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. 28º Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2025. [ISBN 978-65-89012-06-1]. Disponível em: Apresentação - Centro Reichiano


 
 
 

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